2010: Uma odisseia chuta-bundas


A avenida mais famosa de São Paulo, que há mais de cem anos abrigava as mansões da aristocracia cafeeira passa agora por seu momento mais crítico.

Hoje, não há mais o brilho das charretes levando suas damas para os chás, o que é algo bom, visto que essa nunca foi nossa realidade, mas também decair ao seu pior nível já é sacanagem!

No último mês, protestos de todos os tipos tomaram conta das vias, impedindo até mesmo os veículos de estarem ali. Houve uma troca, as pessoas foram para as ruas, mas por algum motivo, os carros não conseguiram ir para as calçadas.

Aurora do Homem

Como nós temos o costume de sermos pioneiros em tudo, inauguramos o primeiro manifestódromo do Brasil, onde eu e você podemos retomar nossos instintos tribais mais básicos, e assim como na “Aurora do Homem”, todos os seres ditos irracionais, o homem-macaco instintivamente luta pela sobrevivência, mesmo que cause um prejuízo de R$ 138 mil por quilômetro de paralisação.

É uma sinuca de bico, pois vejamos o caso dos professores: eles têm o direito e o dever de reclamar melhores condições e reajuste de salários, e utilizando de um recurso também centenário – que é a greve, tentam se fazer ouvidos.

O poder Executivo por outro lado tenta evitar paralisações, tanto na sequência de ensino, como nas vias de fato, já que o que não falta aqui são carros trafegando para todos os lados. Sem contar o próprio direito de ir e vir que todo brasileiro tem como garantia fundamental.

Perceba que citamos professores e executivo, neste caso o governador e o secretário de educação.

Se não me falha a memória, o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual fica no bairro do Morumbi, e a Secretaria de Educação na região central da cidade; então por que motivo chutar bundas numa das principais vias de ligação entre a região da Vila Mariana e o bairro do Higienópolis?

Neste ponto nossa visão fica embaçada, pois somos teimosos em acreditar que para cada profissional em manifestação, havia o dobro ou triplo de agitadores profissionais.

Sim, estes eventos são o maior palanque e praticamente o único momento de divulgação de ideias e propostas de uns 20 dos 27 partidos que existem oficialmente no Brasil.

Então, ao lado de um professor que quer reajuste, faixas de “Fora FMI“, e “Pré Sal é de todos os nós“. Na outra ponta da multidão, carro de som tocando o “Rebolation” enquanto médicos fazem um apitaço, e por aí vai.

A nós mortais, quem precisa ir de um lugar a outro, comprar um GPS e aprender rotas alternativas.

Enquanto isso, a sirene da ambulância parada no trânsito continua tocando, e seu paciente engolindo moedas que servirão para pagar Caronte pela viagem pelo rio, até os portões do Hades, onde Cérbero os aguarda faminto.

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