Arquivo do autor:Eduardo Matosinho

Pintura brasileira na cultura popular: uma amostra

Trazendo um pouco de arte para o nosso site, apresento o novo vídeo da Galeria Pontes, onde trabalho, que apresenta três artistas de expressão na cultura artística de nosso Brasil. Desses, dois são pernambucanos (Samico e Alcides Santos) e o outro é o paraibano Luiz Tananduba. O único que ainda pinta é Tananduba. Alcides Santos faleceu em 2007 e Samico em 2013. Falarei um pouco sobre seus trabalhos pictóricos.

Para introduzir, nada como falar da Arte Popular Brasileira. Ela é bonita, criativa e cheia de vida. Tem um aspecto lúdico que mexe também com jovens e crianças. Encanta e surpreende. E, ao contrário da arte erudita, ela é uma produção espontânea, na qual não sobra espaço para a educação formal ou acadêmica. Quando algum tipo de transmissão de conhecimento existe, ocorre no máximo informalmente com outro artista/ artesão que funciona como iniciador.

Na arte popular há muito mais espaço para a inventividade e para o saber fazer pessoal do que na arte erudita. A imaginação é muito mais livre tanto na forma final do trabalho como nos meios que o artista inventa para resolver os problemas na confecção de sua obra. A arte popular é a viva expressão da criatividade do nosso povo. Através da sua fantasia o artista reinventa a realidade, estabelecendo íntima relação entre o real e o simbólico.

Dos muitos pintores, podemos ver no vídeo acima três deles:

Samico (1928 – 2013) tem sua produção marcada pela recuperação do romanceiro popular nordestino, por meio da literatura de cordel e pela utilização criativa da xilogravura. Suas gravuras são povoadas por personagens mitológicos e outros, provenientes de lendas e narrativas locais, assim como por animais fantásticos e míticos.

Alcides Santos (1945 – 2007) foi enfermeiro de Vicente do Rego Monteiro e desse contato surgiu sua vontade de ser artista. Em 1969 começa a pintar, sob o estimulo do artista Antônio Cavalcanti, que o inicia na utilização das tintas a óleo. Nos anos 70 já havia chamado a atenção do poeta Joaquim Cardozo e do escritor Hermilo Borba Filho, que lhe dedicaram textos. Foi um dos destaques da XXIII Bienal de São Paulo, tendo uma obra utilizada como o cartaz desse evento.

Por fim, temos Luiz Tananduba (1972) que começou a pintar em 1985, com orientação do artista plástico e seu pai adotivo, Alexandre Filho. Sua inspiração vem de uma visão idealizada e subjetiva do povoado de Caiçara, interior do estado, lugar onde cresceu e tomou emprestado seu sobrenome artístico “Tananduba”, um dos sítios da região.

Para maiores detalhes e informações acesse o site da galeria (http://www.galeriapontes.com.br).

O tradicional cuscuz paulista

Gosto de cozinhar sempre que posso e aprecio a boa culinária brasileira. Anos atrás em minhas pesquisas gastronômicas parti em busca da receita do genuíno cuscuz paulista e é essa a estória que apresento hoje no “Vivendocidade” para os apreciadores desse tradicional prato de nosso estado.
 
O cuscuz é um prato muito antigo, sua origem é africana e se dá na região do Magreb, no noroeste da África, que inclui Marrocos, Sahara Ocidental, Argélia e Tunísia. Já o nosso cuscuz, o paulista, é típico do interior do estado, mais foi incorporado já há bastante tempo ao cardápio dos restaurantes da capital. 
 
Essa comida consiste num preparado de sêmola de cereais, principalmente o trigo, mas também pode ser à base de farinha ou polvilho de milho ou mandioca. Salgada e levemente umedecida, a massa é posta a marinar para incorporar o tempero. Depois passa por uma infusão no vapor. 
 
cuscuz-paulista
 
No Brasil, de acordo com o historiador Luís da Câmara Cascudo, a receita teria sido introduzida no século XVI pelos portugueses e atualmente temos em nosso país dois tipos de cuscuz de concepção bem diferentes: o nordestino e o paulista. O comum entre eles é o fato de terem substituído a original sêmola de trigo africana por um ingrediente nosso que é a farinha de milho. 
 
O cuscuz paulista talvez tenha se originado do chamado farnel de viagem, a refeição dos tropeiros, pois nos séculos XVII e XVIII eles costumavam carregar alimentos como farinha de milho, ovo cozido, cebolinha, banha de porco e torresmo, tudo junto numa espécie de lenço, que amarravam e levavam a cavalo. Durante a viagem, a farinha absorvia os sucos dos alimentos e tudo se misturava formando um virado. Desse farnel, o cuscuz evoluiu para a mesa das fazendas, aí já acrescido de outros ingredientes e feito na cuscuzeira de duas partes. Foi nas fazendas que ele adquiriu ares mais sofisticados, sendo introduzido frango ou peixe de água doce em sua receita e hoje a sardinha é muito utilizada. Foi mais para frente que se resolveu adicionar o requinte do camarão. 
 
Para elaborar a receita que ora apresento conversei bastante com uma cozinheira de prato cheio de minha cidade natal, Ourinhos, minha amiga, e ela me deu algumas dicas que incorporei a essa receita. Seu nome era Dona Nadir. Nesse tempo em que comecei a pesquisa me deparei também com um velho livro na biblioteca de meu pai. Este livro, edição de 1946, adquirido em 29 de setembro daquele ano, ficou como herança familiar de minha saudosa mãe Carmita e denomina-se “Comer Bem – 1001 Receitas de Bons Pratos”, escrito por “Dona Benta”. Ele foi editado pela “Companhia Editora Nacional” em um português antigo e, em resumo, a receita que ficou foi essa:
 
Ingredientes
 
– 5 xícaras de farinha de milho em flocos
– 1 xícara de farinha de mandioca
– 2 latas de sardinha em conserva
– 1 xícara de camarões pequenos
– 1 xícara de azeite
– 1 cebola picada
– 2 dentes de alho picados
– 1 folha de louro
– 2 xícaras de molho de tomate
– 3 xícaras de caldo de peixe
– 1 e ½ xícara de ervilhas
– 3 e ½ xícaras de palmito picado
– 2 ovos cozidos picados
– 1 xícara de azeitona
– sal, pimenta-do-reino e cheiro verde
 
Como fazer
 
Misture a farinha de milho esfarelada com a de mandioca. Aqueça o azeite e refogue a cebola e o alho. Junte o louro, o cheiro verde e o molho de tomate. Depois que ferver, acrescente o caldo de peixe, a ervilha, o palmito, a sardinha picada e o camarão. Tempere com sal e pimenta e cozinhe por 5 minutos. Coloque o ovo e acrescente as farinhas, mexendo sempre. Quando soltar da panela, despeje em uma fôrma untada e aperte. Desenforme frio e decore com azeitona, ovos cozidos e salsinha.
 
Bom apetite!

Lirismo de Médico

A beleza do lugar
– De Nantucket –
Só sei eu que li
E reli o poema.

Suas cores e sombras
Que agradam o olhar
E suas palavras que
Soam bem, mesmo secas.

Flores coloridas
Uma janela branca
Limpeza que reluz
Com o sol na tarde.

Água no jarro e um copo
Virado para baixo
O mistério de uma chave
Um leito. Natureza-morta.