.
.
Existem algumas viagens que são inesquecíveis.
Dias atrás viajei para Minas Gerais em visitas aos meus pais. Nem precisa dizer que é longe, muito longe. Mas, tem lá suas compensações. Conhecemos várias cidades, cenários totalmente diferentes que mudam a todo instante. Isto para uma pesquisadora é ótimo.
.

.
Entre tantas cidades, passei por uma com nome de Fervedouro, distante de Belo Horizonte a 330 km. Sem dúvidas, diante do que vi, estava realmente dentro de um fervedouro, tinha uma multidão de pessoas naquela parada.
Quando desci do ônibus me deparei com dezenas outros parados. Gente de todos os credos e raças desciam ávidos para esticar as pernas, dá uma passadinha rápida ao banheiro e tomar um lanche para depois seguir a sua interminável viagem.
Fiz algumas observações bem pontuais. Tinha uma banda de forrozeiros tocando de Luiz Gonzaga a Calcinha Preta. Os pés de valsa logo iam buscando um parceiro (a) para dançar um pouquinho, ali mesmo na calçada antes de entrar no restaurante, se é que posso chamá-lo de restaurante, (tinha mais brinquedos que lanches).
Eu não podia imaginar que este município abriga a maior população de monocarvoeiros e macacos, integrantes das listas de animais ameaçados de extinção. É reconhecida também pelo Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, como uma das ultimas reservas da floresta da encosta Atlântica do Estado. Fervedouro é hoje um município muito conhecido pelo seu potencial hidromineral de grande valor turístico com suas águas fervescentes e lamas medicinais.
Bom, vamos à viagem. Logo os motoristas apressados começaram um buzinaço para avisar os mais desprevenidos que já era hora da partir. (interessante que o motorista é carinhosamente chamado de “Motô”). E só se ouvia um pedido: “calma motô” já está indo…
Começou a parte mais trágica da parada. Gente entrando e saindo dos ônibus desesperados, pois não sabiam qual o carro certo que os conduziram até aquele momento. Crianças chorando a procura de seus pais, namorados sem o amor, velhinhos que não enxergavam os letreiros e assim por diante. O entra e sai dos ônibus era interminável.
Essa visão tão extraordinária nos leva a pensar o nosso Brasil. Um povo alegre que se diverte com pouco, que criam laços em questão de segundos, mas também, uma imagem de desigualdade, miséria, injustiça, sofrimento gratuito e evitável. Evitável sim se fosse às falsas promessas dos nossos governantes. Alias algumas ainda bem fresquinhas em nossas mentes.
Dos diversos assuntos ouvidos no percurso desta viagem, tinha uma palavra de ordem: tentar a sorte em outro lugar. Pessoas que ainda são obrigados a deixar sua terra natal, pela falta de condições mínimas a que chamamos de sustento. Muitos daqueles que ali estavam tinham um choro preso na garganta em deixar os seus familiares e sair em busca de mundo melhor.
O triste disso tudo é que do jeito que o barco anda, pouca coisa vai mudar dessa realidade.
Foto de Brunno Regis
Gostou do Post? Leia outros relacionados: