Categoria: Literatura

Eu, seu


Um anjo, uma rosa,
Um rouxinol, uma deusa,
Uma estrela, uma artista.

Algumas eu não possuo
Outras não desejam…

Logo eu, ansioso que sou
Sem destino, sob suspeita.

Qual o ponto em comum entre vocês?

Se eu não as vejo
Ou outro alguém se aproxima:
Rosto corado, coração machucado.

Pensamentos de um dia cinza tão despenteados
Soltos jogados,

Como num dia de vendaval…


O Batizado


A encontrou dormindo no sofá. Tinha ido a uma festa ontem e literalmente desmaiou, pelo estado em que estava. Se aproximou e passou a observá-la, suas formas, curvas, como a claridade que entrava pela janela refletia em seu rosto.

O tempo parou no momento em que sentiu seu perfume, enquanto roçou de leve em seu corpo.

Ela não teve reação. Sentiu-se confiante, tocando em outras partes de seu corpo. Tirou sua blusa, estava sem sutiã. Ficou olhando seus seios por alguns instantes, como se aquele momento fosse durar para sempre. E não teve coragem para tocá-los. Talvez pelo frio repentino, ela se encolhe um pouco mais, deixando seus quadris intocados à mostra.

Com toda paciência, abaixa o short cor de rosa que estava usando, deixando na altura dos joelhos.

Calcinha minúscula com motivos infantis, e ele sorri: ‘Nabokov estava certo’ pensa afinal. Se aproxima em beijos, rápidos e estalados, enquanto, pelo tato, descobre sensações que nunca imaginou ter, enquanto sua respiração se iguala à dela.

Vai ganhando confiança aos poucos, e logo está completamente nu. Sente-se capaz de maiores façanhas, como se tivesse talvez certa dose de imortalidade. ‘Será que és virgem?’ diz entre os dentes.

Ao contrário do que talvez pudesse acontecer, decide que não fará nada além. Como se aquele momento fosse o único que devesse existir. A observa por alguns instantes e só tem seu pensamento interrompido pelo telefone que toca.

Ele tem que entregar uma encomenda que não pode ser postergada.

Depois que alguns dias, no tradicional final de semana em família, recebe um convite para celebrar o aniversário de 17 anos dela.

No cartão estava escrito: “Sim, eu sou virgem…” e logo abaixo “Mas adorei!”

Fim


Sexta poética: SONETO NO. XII


SONETO NO. XII

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-me o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

William Shakespeare (1564-1616)
in Sonetos, 1609

É possível comentar em poucas palavras a importância do bardo inglês para a literatura mundial?
De qualquer maneira, ele é o mais famoso dramaturgo e poeta inglês de todos os tempos. Compôs suas peças durante o reinado de Elizabeth I (1558-1603) e de James I, que a sucedeu.

Reza a lenda que na verdade era uma completa fraude, sendo o contemporâneo Christopher Marlowe (1564-1593), o verdadeiro gênio.

Eu lá li muitos textos do primeiro, e apenas um do segundo e de fato, são parecidos em sua essência, mas aí afirmar quem escreveu o quê e de que forma, deixo para vocês.

Aproveite (em inglês):

- The Complete Works of William Shakespeare
- The Complete Works of Christopher Marlowe