Cidade dos Sonhos: O amor da mulher é um beijo no espelho


Mulholland Drive

Recentemente, conheci o filme Cidade dos Sonhos, comprei o DVD e posso dizer apenas que é um filme denso, daqueles que te deixam paranóico por uns dias (eu fiquei com medo do escuro e a todo momento imaginava que tinha alguém me seguindo). É praticamente impossível entendê-lo com apenas uma assistida, e a cada vez que se assiste, temos (ou tentamos ter) uma visão diferente daquela que imaginávamos ter tido.

É basicamente uma estória de amor em Los Angeles, cidade do sonhos e meca do cinema norte-americano; mas também é muito mais, é a visão de seu maior pesadelo, é a certeza que tudo algumas vezes pode ser nada, e o inverso…

Para aqueles que já assistiram, e como eu ficaram com o cérebro colado no teto, segue uma resenha feita pelo Carlos “Amerika” Carreira, na qual teve a gentileza de me autorizar na íntegra. Ele não comentou da publicação do seu e-mail, portanto caso for necessário, faço a ponte dos comentários e mensagens à ele (spoilers para quem ainda não viu):

CIDADE DOS SONHOS: O AMOR DA MULHER É UM BEIJO NO ESPELHO

Por Carlos AKA “Amerika” Carreira

Todas as interpretações que encontrei de Mulholland Drive (MD) consistem aproximadamente no seguinte: os primeiros 2/3 do filme são o sonho de Betty, alter-ego de Diane moribunda física e/ou psicologicamente; o último terço é a Realidade das vidas de Diane e Camilla. Concordo basicamente com a divisão, mas não com a interpretação da primeira parte.É preciso ter presente o universo lynchiano: metafórico, onírico, alucinatório, barroco, católico, emocional, povoado de anjos e demônios mais ou menos inconscientes, internos e manipulativos, perversões, culpas, recalcamentos, purgatórios e redenções.Em MD, David Lynch usa, entre muitas outras, duas “peças” metafóricas: a chave e o cubo, ambos azuis (o azul tem também significado metafórico e emocional ao longo de todo o filme, tal como a sua restante paleta de cores): as chaves azuis “são” a MORTE (a morte física no caso da chave real que o assassino contratado usa como sinal; a morte potencial, metafórica ou real, no caso da chave azul estilizada que Camilla acha na mala.

Esta “morte” pode também ser entendida como a “key” para mudar radicalmente de… Vida; talvez no sentido de mudança fundamental que a carta da Morte encerra no Tarô. Quanto ao cubo, ele tem dois óbvios estados possíveis: fechado é o MISTÉRIO (o profundo mistério do significado da vida, o insondável, o incompreensível); aberto é a REVELAÇÃO. A associação é também óbvia: só a chave da MORTE permite a REVELAÇÃO do MISTÉRIO…

Interpretar a primeira parte do filme como um sonho de Diane é dar a esta personagem todo o protagonismo. Camilla ficaria resumida a uma imagem de Diane e todo o filme seria basicamente a história de Diane. Ora em toda a aura de marketing que rodeia o filme bem como no que resulta do seu visionamento linear, transparece a história de duas mulheres, duas faces da mesma moeda, a loura e a morena, siamesas na obscuridade do enredo.

Assim e equilibrando a equação, proponho a seguinte interpretação:

Destroçada, transtornada e em desespero total, Diane compra o assassinato da sua amada Camilla. O mecanismo demoníaco da morte é acionado através dos seus executores físicos, psicológicos, mentais e surreais (não cabe aqui essa análise). A limusine preta desliza (de fato, na realidade!), ao longo da tortuosa e sinistra e perigosa estrada das colinas sobranceiras a Hollywood, donde se avista a espaços o Valley (a gigantesca planície de malha urbana e suburbana a que se pode vagamente chamar LA).

Esta estrada é de fato perigosa e os acidentes acontecem. O eminente assassinato de Camilla fracassa súbita e inesperadamente devido ao tremendo embate do carro de adolescentes em corrida delirante. Ferida, transtornada e em choque, ela desce pelos arbustos da encosta e refugia-se numa casa que (aparentemente) a única residente está a abandonar durante algum tempo, como se fosse de viagem.

Amnésica e traumatizada em todos os sentidos, Camilla adormece ou alucina. A HISTÓRIA QUE SE SEGUE PODE MUITO BEM SER O SONHO/ALUCINAÇÃO de Camilla. É algo especulativo a partir daqui, e até a parte “real” do filme, discernir o que é alucinação e sonho do que é realidade no percurso de Camilla e das outras linhas narrativas que estão em movimento: o realizador, o assassino, etc.

Todos os argumentos sobre o enredo de estranhos personagens no suposto sonho à beira do fim de Diane são igualmente válidos para Camilla. Elas eram amantes e colegas, partilharam as vidas, os passados, as histórias, logo as personagens cabem perfeitamente na alucinação de Camilla.

Mas e Betty/Diane? Como se ajusta aqui?

Na perfeição. Betty é um anjo lynchiano típico, o anjo perfeito da amnésica Rita (Camilla sem identidade). Betty é linda demais, amiga demais, amante demais, maternal demais para ser outra coisa que não um anjo na lenta recuperação de Camilla. É com o seu anjo da guarda que Camilla vai viver e falar, ser apoiada e receber a energia e iniciativa que não tem. Não é perfeito que a idealização angélica de Camilla seja precisamente a Diane que existe nas profundezas da sua memória, a amante que a amou acima de todas as coisas, a Diane ainda pura e “canadense” do início do seu relacionamento?

Não é perfeito que Camilla “crie” o anjo que a protege da culpa de ter mais ou menos voluntariamente destroçado a sua amada Diane através dos seus outros amores que só conhecemos na parte final? Não é perfeito que assim sendo não haja uma dicotomia entre duas entidades físicas Betty/Rita mas sim uma unidade: Camilla amnésica e seu anjo da guarda Betty são/estão na mesma pessoa.

Esta interpretação permite “dar realidade” a muitos mais acontecimentos, ou, pelo menos, a deixar ao critério pessoal essa assunção: a rede assassina anda de fato preocupada com o desaparecimento da marcada para matar; é para o telefone de Diane que é passada palavra de que a rapariga está desaparecida, mas ninguém atende, pois Diane já se suicidou pensando que Camilla morreu, pois recebeu erradamente a chave-sinal (isto é shakespeariano).

É, no mínimo, genial que a alma liberta da suicida Diane voe para ser o anjo de Camilla; se é Camilla que sonha o episódio da escolha da protagonista do filme de Adam é natural que nome e foto não correspondam, pois Camilla amnésica não sabe quem é Camilla; além disso, supondo que as histórias envolvendo Adam são sonhadas (transfiguradas pelo sonho), quem melhor do que a noiva de Adam para ter tido conhecimento do que se passou com o lançamento do filme e a sua vida pessoal; quando das profundezas da memória, Camilla verbaliza o primeiro nome (que é “Diane”), e orientada pelo seu anjo, visita (de fato?) a casa onde se depara com o cadáver que se confunde com um cadáver dela própria (de novo o jogo de espelhos).

Ainda orientada pelo seu anjo, temendo ainda mais pela vida ao ver-se associada aquele cadáver (e o mais que na sua memória profunda lhe lembrasse que tinha sido vítima de uma tentativa de assassinato), Camilla disfarça-se de… Diane (Genial!). Mas Camilla continua amnésica e sem as ferramentas suficientes para entender o sentido de tudo isto. É então que é acometida por uma necessidade vital de ir ao Silêncio de neon azul. Mulher e anjo correm (na realidade?) para este estranho teatro onde se encena a Grande Revelação em fumos azuis. “Não há banda”, mas sim uma fita gravada ao som da qual os atores (todos nós) “sincronizam”; não há nada de novo, nem lugar ao improviso, apenas ajuste efêmero ao som há muito gravado, até a profundíssima paixão da Llorona pré-existia e pós-existe a ela, desfalecida. No fim, apenas o vácuo do silêncio.

Da lição de Silêncio, Camilla e Anjo recebem metaforicamente o cubo azul de que necessita(m) para a revelação pessoal. Correm para casa (e é aqui que encontro a principal “prova” de que este sonho é de Camilla, pois imediatamente antes da revelação, ou seja, a abertura do cubo com a chave respectiva, o Anjo desaparece (desvanece-se?). Já não tem cabimento na verdade de Camilla.

É Camilla quem abre o Cubo, mas para onde ela foi/vai?

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Um comentário sobre “Cidade dos Sonhos: O amor da mulher é um beijo no espelho”

  1. [...] Recomendo “Cidade dos Sonhos/Mulholland Drive” que foi o que assistimos em casa, e que foi brilhantemente resenhado pelo meu xará Carlos “Amerika” Carreira em seu artigo intitulado “O amor da mulher é um beijo no espelho“. [...]

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