Contos fadados


dita-von-teese-sem-maquiagem

.

Era uma vez… Uma Lola que se pegou lembrando dos contos de fadas que escutamos quando crianças. Sempre existe uma moça eternamente jovem, indefesa, magra, linda, dependente e boazinha à espera de um príncipe guerreiro e heroico que atravessa as mais perigosas florestas de espinhos, derrota o dragão com uma mão amarrada às costas e não precisa de ajuda de ninguém, porque ele é o cara e tem obrigação de dar conta de tudo sozinho. Do outro lado aparece aquela mulher feia, gorda, de nariz grande e verrugoso, de cabelo ruim com a qual não devemos nos enganar, pois ela sempre será muito malvada, invejosa e feiticeira.

Me desculpem, mas é quase impossível não perceber a semelhança com alguns aspectos dessa cultura alastrada na atualidade. Nossa pebada (do acreanês “de baixa qualidade”) sociedade coloca como aceitáveis e desejáveis alguns insólitos padrões de beleza e renegam as fêmeas que não estão dentro desses padrões, fazendo com que estas sempre apareçam como as bruxas da história. E se a dita “bruxa” for uma companheira compreensiva, carinhosa e ajudadora? Será que ela também não merece encontrar seu príncipe encantado? Talvez não haja homem suficientemente inteligente pra perceber que por trás da bruxinha feia pode existir uma companheira que lhe dará muito amor. Será que alguém já parou pra pensar que a coitadinha pode ser só traumatizada e cheia de neuras por ser preterida e odiada a vida inteira? Talvez, se você olhar bem, aquilo lá não é um caldeirão de feitiços, é uma panela de fondue de chocolate te esperando pra saborear.

E pensando nos príncipes imagino que com aquelas perninhas finas eles não derrotariam nem uma lagartixa, tampouco um dragão. Mas falando sério, será que é tão homossexualizante assim um macho humano pedir ajuda e admitir uma fraqueza? Será que eles pensam que procurar cuidados médicos quando sentem uma dor irá diminuir a testosterona e deixá-los menos heroicos? E porque um macho man não pode pedir colo e carinho à sua companheira quando se sentir triste ou carente? Wake up guys! Foi-se o tempo em que menino não podia chorar.

Admitir que a floresta esteja difícil de vencer sozinho e que para matar um dragão todo dia é preciso de alguém protegendo a retaguarda não é vergonha nenhuma. A responsabilidade que colocam sobre os ombros masculinos às vezes é bem injusta. O príncipe precisa sim de auxílio para vencer o dragão e sentir-se cuidado e protegido por alguém dá força e ânimo novo pra prosseguir batalhando.

Padrões de comportamento são mais facilmente imantados e moldados nas mentes durante a infância. Não subestimem nunca o poder do inconsciente humano, especialmente nas primeiras fases da vida. Tudo que entra na mente permanece escondido em algum lugar e às vezes se manifesta no futuro e determina em muitas ocasiões nossos padrões de comportamento e nossos ideais de vida. E outra, o que se faz na infância geralmente é treino para a vida adulta. Ok, ok, toda regra tem exceção, mas não conte com o fato de que você é uma, ou que seu filho será.

encantado-shrek-príncipeQue pareça bobagem, mas se o garoto aprende que seu brinquedo é só e obrigatoriamente a espada de guerreiro e que é feio ter uma boneca bebê nos braços em algum momento, como ele vai ter naturalidade para trocar fraldas do seu filho sem encucações quando o tiver? Se a menina entende que o bonito e aceitável é ser sempre a princesa que não consegue bater um prego em barra de sabão e espera que alguém a salve de tudo, como ela entenderá facilmente que ser mulher vai muito além de vender beleza e esperar pelos outros? E se por acaso a princesinha crescer e ficar gordinha, com o nariz de batata herdado do papai ou da mamãe e com um cabelo que não é aquele loiro lisinho que ela via nas gravuras, será que ela vai se olhar no espelho e ver uma bruxa feia que sempre vai se dar mal no fim?

Fico aqui matutando. Será que de alguma forma esse ideal de beleza e heroísmo estabelecido na nossa sociedade não estaria de certa forma ligado, ainda que indiretamente, a bulimias, anorexias, zilhões de tratamentos capilares agressivos e cirurgias sem número? O problema, meus caros, não é o conto de fadas em si. O problema é o uso que se faz dele. O mal não está em contá-lo e sim em como será contado e como serão aplicados os ensinamentos que porventura estejam escondidos nele. É bom que durante toda a contação da história haja um narrador com os pés bem firmes no chão até chegar em… E foram felizes para sempre.

Gostou do Post? Leia outros relacionados:

8 comentários sobre “Contos fadados”

  1. Marina disse:

    Adorei seu texto, adorei a forma com vc desmistifica a bruxa e vou te falar: concordo a beça!
    Parabéns!

  2. Igor G. disse:

    Concordo com o que disse e como falei mais opiniões desse tipo devem ser manifestadas.

  3. Andrya disse:

    Interessante, irreverente e sobrepujante (no bom sentido, claro). =)

  4. @tielsam disse:

    Ótimo post, realmente contos de fadas são todos igual, com seus esteriotipos femininos e masculinos, muito cultivados pela sociedade. :-) )

Deixe um Comentário