Gengis Khan


Talvez o maior conquistador e comandante militar da história da humanidade, Gengis Khan (1162-1227) é também o menos entendido e estudado no ocidente.

Gengis Khan

Gengis Khan at the Military Museum of Beijing, by Davidalender Hu

Isso porque as cadeiras de história tratam de assuntos essencialmente factuais e europeus (império romano, renascença, grandes navegações, descobrimento do Brasil, etc…)

Fatos do Império Mongol, seus cosumes e cotidianos ficam, por isso, em segundo plano.

Dessa forma, se quisermos recorrer a fatos e acontecimentos mongóis e/ou essencialmente orientais, temos muitas vezes que pesquisar em meios não canônicos.

O escritor inglês Conn Iggulden, que procura sustentar sua ficção com fatos históricos tem nos ajudado muito neste sentido, além (é claro) do mestre Bernard Cornwell.

Seu último trabalho, O Conquistador, relata justamente a vida deste célebre general.

No Brasil, somente dois livros foram publicados, pela editora Record:

Vejam um trecho onde ele aconselha seus filhos sobre o que virá no futuro:

Gêngis esperou pacientemente até que Kachiun retornasse com Jochi, Chagatai e Ogedai, com seu irmão ficando de lado para deixar os filhos se aproximarem. Kachiun espiou com o canto do olho enquanto Gêngis se sentava com as pernas cruzadas e os três garotos o encaravam sobre o cobertor áspero. Em silêncio, serviu para cada um uma taça de bebida forte, e eles a pegaram formalmente com a mão direita, apoiando o cotovelo com a mão esquerda para mostrar que não seguravam arma.

Gêngis não pôde encontrar nada para criticar na postura deles, enquanto os observava. Jochi usava uma armadura nova, um pouco grande em seu corpo. Chagatai ainda tinha a que ganhara. Só Ogedai usava o tradicional manto almofadado, o dil, já que aos dez anos ainda era muito pequeno para merecer uma armadura de homem, mesmo com a quantidade que haviam capturado na Boca do Texugo. O menino olhava a taça de airag com alguma dúvida, mas bebeu com os outros, sem qualquer expressão.

— Meus pequenos lobos — disse Gêngis, com um sorriso. — Vocês todos serão homens quando eu os vir de novo. Já falaram com sua mãe?

— Já — respondeu Jochi. Gêngis o olhou e se perguntou sobre a profundeza de hostilidade nos olhos do garoto. O que ele fizera para merecer isso?

Devolvendo o olhar de Jochi, falou com todos:

— Vocês não serão príncipes longe deste acampamento. Deixei isso claro aos seus generais. Não haverá tratamento especial para os meus filhos. Vocês viajarão como qualquer outro guerreiro do povo, e, quando forem chamados a lutar, não haverá ninguém para salvá-los por causa de quem vocês são. Entenderam?

Suas palavras pareceram sugar a empolgação dos garotos, com os sorrisos desaparecendo. Um a um eles assentiram. Jochi terminou de beber e pôs a taça no cobertor.

— Se vocês forem criados para serem oficiais — continuou Gêngis — será somente porque demonstraram ter pensamento rápido, habilidade e coragem maior do que os homens ao redor. Ninguém quer ser liderado por um idiota, mesmo um idiota que seja meu filho.

Ele parou, deixando isso penetrar enquanto seu olhar pousava em Chagatai.

— No entanto, vocês são meus filhos e eu espero ver o sangue correr verdadeiro em cada um. Os outros guerreiros estarão pensando na próxima batalha, ou na última. Vocês estarão pensando na nação que poderão liderar. Espero que encontrem homens em quem possam confiar e os liguem a vocês. Espero que se esforcem mais e mais implacavelmente do que qualquer outro poderia. Quando sentirem medo, escondam-no. Ninguém mais saberá, e o que o causou passará. O modo como se portarem será lembrado.

Havia muita coisa para dizer a eles. Era gratificante ver até mesmo Jochi grudado em cada palavra, mas quem mais poderia lhes dizer como governar, se não seu próprio pai? Este era seu último dever para com os meninos, antes de se tornarem homens.

Quando estiverem cansados, jamais falem sobre isso e os outros pensarão que vocês são feitos de ferro. Não permitam que outro guerreiro zombe de vocês, nem mesmo de brincadeira. Os homens veem quem tem força para enfrentá-los. Mostrem que não irão se acovardar e, se isso significar que precisam lutar, bom, é o que devem fazer.

— E se for um oficial que zombar de nós? — perguntou Jochi, baixinho. Gêngis o olhou incisivamente.

— Já vi homens que tentam desviar esse tipo de coisa com um sorriso, ou baixando a cabeça, ou mesmo cabriolando para ver os outros rirem mais ainda. Se fizerem isso, vocês jamais comandarão. Recebam as ordens que forem dadas, mas mantenham a dignidade. — Ele pensou por um momento.

A partir deste dia, vocês não são mais crianças. Você também, Ogedai. Se tiverem de lutar, mesmo que seja com um amigo, derrubem-no o mais depressa e com o máximo de força que puderem. Matem se for preciso, ou o poupem; mas cuidem para que nenhum homem fique lhes devendo. Dentre todas as coisas, isso é o que mais causa ressentimento. Qualquer guerreiro que levante o punho para vocês deve saber que está jogando com a vida e que vai perder. Se vocês não puderem ganhar a princípio, vinguem-se, nem que seja a última coisa que façam. Vocês estão viajando com homens que só respeitam uma força maior que a deles, homens mais duros que eles próprios. Acima de tudo, eles respeitam o sucesso. Lembrem-se disso.

Seu olhar duro passou sobre eles, e Ogedai estremeceu, sentindo o frio das palavras. Gêngis não sorriu ao ver isso, enquanto continuava:

— Jamais se permitam ficar moles, ou um dia haverá um homem que tirará tudo de vocês. Ouçam aqueles que sabem mais do que vocês e sejam os últimos a falar, em qualquer conversa, até que eles esperem que vocês lhes mostrem o caminho. E tenham cuidado com os homens fracos que venham até vocês por causa de seu nome. Escolham seus seguidores com tanto cuidado como se fossem esposas. Se eu tenho apenas uma habilidade que me levou a governar nosso povo, é essa. Consigo ver a diferença entre um guerreiro espalhafatoso e um homem como Tsubodai, Jelme ou Khasar.

O fantasma de um riso de desprezo tocou a boca de Jochi antes de ele desviar os olhos, e Gêngis se recusou a deixar que a irritação aparecesse.

— Mais uma coisa antes de vocês irem. Tenham cuidado quanto a derramar sua semente. — Jochi ficou vermelho nesse momento, e a boca de Chagatai se abriu. Só Ogedai pareceu confuso. Gêngis continuou:

— Os garotos que passam a noite brincando com suas partes ficam fracos, obcecados pelas necessidades do corpo. Mantenham as mãos longe e tratem o desejo como qualquer outra fraqueza. A abstinência irá torná-los fortes. Com o tempo, vocês terão esposas e amantes.

Enquanto os três garotos ficavam ali sentados, num silêncio embaraçado, Gêngis soltou a espada e a bainha. Não havia planejado isso, mas parecia certo, e ele queria fazer algo que eles fossem lembrar.

— Pegue, Chagatai — disse. Em seguida, bateu com a espada nas mãos do filho. Chagatai quase deixou-a cair, num prazer espantado. Gêngis ficou olhando quando o menino levantou o punho com a cabeça de lobo para captar o sol, depois desembainhou lentamente a lâmina que seu pai havia carregado durante toda a vida. Os olhos dos outros estavam no metal brilhante, luzidios de inveja.

— Meu pai Yesugei a usava no dia em que morreu — disse Gêngis, baixinho. — O pai dele a fez, numa época em que os lobos eram inimigos de todas as outras tribos. Ela tirou vidas e viu o nascimento de uma nação. Certifique-se de não desonrá-la.

Chagatai, sentado, baixou a cabeça, dominado pelos sentimentos.

— Não desonrarei, senhor — respondeu ele. Gêngis não olhou o rosto de Jochi.

— Agora vão. Quando retornarem aos seus generais, tocarei a trompa. Nós nos veremos de novo quando vocês forem homens, e poderemos nos encontrar como iguais.

— Estou ansioso por esse dia, pai — disse Jochi de repente. Gêngis levantou os olhos claros para ele, mas não disse nada. Os garotos não falaram uns com os outros enquanto galopavam para longe, no terreno duro, e não olharam para trás.

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Um comentário sobre “Gengis Khan”

  1. Pensando em Voce – Turma do Pagode – Xoin do cavaco | Abraço - abraços e beijos disse:

    [...] Gengis Khan | Vivendocidade [...]

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