O sotaque mooquense, típica mistura do português, italiano e espanhol deve ser alvo de preservação e tombamento pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico – Conpresp, é o que prevê projeto de lei municipal enviado à Câmara pelo vereador Juscelino Gadelha (PSDB).
Se aprovado, será o primeiro bem imaterial da cidade de São Paulo, e será somado a um rol que já considera patrimônios históricos nacionais o acarajé e a voz do sambista Jamelão, originais da Bahia e Rio de Janeiro respectivamente.
Segundo o vereador, nascido e criado no bairro da Moóca, “queremos que daqui a duzentos anos, quando certamente a Moóca estará bem diferente de hoje, exista um registro no livro de tombo que aqui no bairro se falava cantado, e que esse modo de falar italianado, típico, influenciou gerações e quase toda a cidade”.
Essa fala cantada, sempre esteve nas artes e sátiras por aí, sendo as mais famosas, as músicas de Adoniram Barbosa (1910 – 1982), aquele mesmo do “Trem das Onze”:
SAMBA DO ARNESTO
O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez nós num vai mais
Nós não semos tatu!
No outro dia encontremo com o Arnesto
Que pediu desculpas mais nós não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas você devia ter ponhado um recado na porta
Um recado assim ói: “Ói, turma, num deu pra esperá
Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,
Assinado em cuspo porque não sei escrever”
Nas poesias de Juó Bananère, pseudônimo usado pelo escritor brasileiro Alexandre Marcondes Machado (1892 – 1933):
SUNETTO FUTURISTE (pra Marietta)
Tegno una brutta paxó,
P’rus suos gabello gôr di banana,
I p’ros suos zoglios uguali dos lampió
La da Igregia di Santanna.É mesimo una perdiçó,
Ista bunita intaliana,
Che faiz alembrá os gagnó
Da guerre tripolitana.Tê uns lindo pesigno
Uguali cos passarigno,
Chi stó avuáno nu matto;I inzima da gara della
Té una pinta amarella,
Uguali d’un carrapatto.
Mas nossa memória mais recente certamente é a do personagem “João Bacorinho”, corintiano fanático vivido por Olney Cazarré (1945 — 1991), na Escolinha do Professor Raimundo:
Além disso, o vereador apresentou um pedido para tombamento da tradicional Festa de San Gennaro, também na Moóca. De acordo com ele o bairro é um dos mais antigos da cidade e a “cultura italiana que surgiu no local tem que ser preservada”.
A página do vereador no site da CMSP – Vereador Juscelino Gadelha
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