Era manhã de inverno, e eu tinha que me levantar para trabalhar, algo normal, repetido à exaustão por cada vez mais pessoas.
De fato, apenas a minoria de todos os habitantes da terra não é obrigada a trabalhar, eles são chamados de Os Unos. A eles é dada a responsabilidade de decidir e coordenar que rumos vamos seguir, e pensem comigo, um planeta como o nosso, com pouco mais de 12 bilhões de pessoas, convenhamos que não trabalhar não é uma tarefa das mais agradáveis. E não é.
Por isso que acho ótimo todos os dias, ser acordado num horário diferente, já que não temos despertadores ou algo assim, mas dispositivos que aprendem nosso padrão de sono e nos despertam no momento que julgam ser mais apropriados para nós. Acredite, quando foi inventado, isso foi uma revolução.
Só que com o passar dos anos, as empresas, ou melhor, a única empresa que existe conseguiu de alguma maneira diminuir os nossos períodos de descanso, e com isso somos obrigados a iniciar nossas atividades mais cedo, só que ninguém me perguntou se toparia trabalhar mais em troca da mesma miséria que eles dão em troca.
Não lembro bem quando aconteceu, talvez na metade do século XXI, mas é certo que quanto mais as empresas cresciam, e se espalhavam pelos cantos do planeta, foram aumentando seu poder e se juntando ou mesmo engolindo as menores. Estipule isso por dezenas de anos e chega no tempo atual, com somente uma empresa responsável por todos os setores de nossa economia.
“Não posso ir porque está chovendo” seria uma desculpa perfeita em alguma época. Não ir aos lugares, ou chegar atrasado, só para se encontrar com algum amante, pode ser socialmente aceito. Mas pode ser sempre um pretexto falso, como se o lugar em que vivemos tivesse esgotos ao céu aberto, e o risco de cair em algum deles é grande.
Acontece que não chove, eu mesmo só sei dessas estórias porque li em algum lugar ou algum velho me contou. Mas nunca vi.
Hoje, apesar de termos essa quantidade de gente toda, mal conversamos com alguém, parece mentira, mas a maioria mora sozinha e trabalha em casa. Nossas comunicações são muito boas. E aqueles que circulam por aí, estão sempre apressados que mal dá tempo de prestarmos atenção.
Não há o que ser visto.
Nossa, nem percebi que pensar nessas coisas me deixa meio deprimido. Melhor tomar um comprimido enquanto vejo as mensagens que recebi durante meu (curto) descanso…
Gulp! Glup!
Hã? Huh? Hein?
Uma mensagem expressa do departamento dos Unos? Devo estar morto, ou talvez seja quando chegar lá.
Mais que depressa arrumei minhas coisas e saí de casa. Sol forte, arde as vistas. Mas eu corro mesmo assim.
Inevitavelmente, volto a pensar na chuva: pessoas cobrindo suas cabeças com jornais velhos, esperando em baixo de algum coberto ou amontoadas em algum ponto de ônibus. Um sonho.
E se no caminho eu me perdesse, e não chegasse há tempo? Talvez não, posso ser um tolo, mas daqueles que gostam de estar vivos.
“O que faz aqui, e qual a sua designação?” uma voz metálica dentro de uma caixa na frente do prédio.
Fui convocado. Sou…
“Entre”
Sem espanto, a enorme porta é aberta e eu sigo pelo caminho indicado. Acho que reconheceram minha voz, não seria impossível afinal de contas.
Chego numa sala, não consigo ver suas dimensões, apenas uma mesa central com o tampo iluminado. Uma sala escura.
“O senhor sabe de onde os bebês veem?” pergunta estranha, claro que sei, respondo.
Todos nós sabemos que é preciso um zigoto, uma célula diploide resultante da união dos núcleos haploides de duas células mutuamente compatíveis para que haja um bebê.
Todos nós sabemos que a empresa fabrica esses ovos…
Quero perguntar sobre o que é tudo isso, mas algo no meu inconsciente me alerta para responder apenas o que é perguntado, e sair dali o mais rápido possível.
“Qual o seu trabalho?”
Sou responsável pelo controle das portas automáticas.
“É seu aniversário. Alguém te dá uma carteira de couro. Como reage?”
Que tipo de carteira?
“De couro.”
Não sei o que é isso.
“Sabe o que é uma vaca?”
Sei. Não faço ideia de como reagiria.
“Tempo de reação é um fator determinante, então por favor preste atenção e responda o mais rápido que conseguir”
Sim, não se repetirá.
“Podemos continuar?”
Claro.
E as perguntas continuam. Já tinha ouvido falar desse teste, que mede as reações do corpo frente às provocações emocionais das questões. Acho que me saí bem. Estou acostumado a trocar de máscaras sempre que necessário. Triste, mas útil.
Preciso de outro comprimido. Sim, bem melhor; quase não me lembro o que vim fazer aqui, mas sei que não posso ficar mais.
Esse remédio é bom mesmo!
No caminho pra casa, vejo um amontoado de pessoas, talvez umas duas ou três, algo espantoso! E como elas ficam perto umas das outras! Deve ter acontecido algo muito grande para que isso acontecesse, e de fato aconteceu.
Tinha começado a chover.
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Ignácio de Loyola Brandão já fez algo parecido.
Sabe o nome ou como encontrar esse trabalho?
Você não é menos que brilhante. E trabalhos parecidos sempre irão existir. Relax! Amei (como tudo que você escreve)!
Não critiquei seu trabalho, fiz uma referência.
Segue: ´Não Verás País Nenhum, da Círculo do Livro.
Para a “Lola”: Nenhum novo escritor interessante pode brilhar por sí só. Não devemos fazer cópias fidedignas, mas resgatar as idéias que como neste caso datam de duas décadas, é sim uma idéia brilhante, até mesmo pelo fato de Brandão ter meio que “prenunciado” o caos climático no qual nossas metrópoles vivem e o Carlos ter relatado com tanta sensibilidade a situação que não apenas a ele e a mim, mas certamente a você preocupa demais. Nossas relações, nossa alimentação, nossos sonhos estão cada vez mais sintéticos e surreais. Creio ser essa a colocação dos dois trabalhos.