Respeite-me as cãs!


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“Pinto os cabelos de preto para os encontros amorosos e de branco para as reuniões de negócios.”

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A frase acima é atribuída ao empresário turco Aristóteles Onassis. Pense num cara passado na casca do alho! Sabe tudo!

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Chamados na Bíblia Sagrada de cãs, os cabelos brancos sempre puderam ser associados à velhice de forma negativa ou à respeito, sabedoria, confiabilidade e responsabilidade, como o senhor Onássis deixou no ar na segunda parte de sua frase. Depende muito do referencial que se toma.

Ao falar da questão dos cabelos brancos e o que representam à luz dos atuais padrões de beleza, caímos mais uma vez na velha e cansada história dos fatos sociais de Durkheim que são como uma prensa de ferro velho enquanto nós somos aquele Fusca 1963 sem manutenção, pronto a ser massacrado sem ter pra onde correr. Eita saudade do Herbie! Alguém lembra?

Bom, nossa cultura, que visa jovialidade e beleza a qualquer custo, empurra pela nossa goela abaixo os padrões e nós absorvemos. Tanto é que ao primeiro sinal de despigmentação dos fios já os arrancamos, pintamos e o que mais se puder fazer para não parecermos mais velhos e acabados do que realmente somos. A ala feminina é mais neurótica com isso mas tem por aí uns metrossexuais que competem com as fêmeas na vaidade. Sei lá!

Mas peraí! Velhice também não é sinal de experiência, sabedoria etc? Porque será que temos tanto medo de parecermos mais velhos? Medo das responsabilidades que o processo de amadurecimento e envelhecimento trazem junto? Medo que o amor da nossa vida queira alguém mais jovem e decida nos descartar? Medo de parecer mais próximos da morte? Como eu disse, depende muito da luz sob a qual se analisa essa questão.

Certa vez, conversando com uma amiga de 33 anos sobre coisas de menininhas, caímos no assunto dos seus cabelos grisalhos que já se alastravam. Pra minha surpresa (e deleite) ela me diz abertamente que não ia pintar o cabelo. E justificou que, além de sempre ter achado lindo o cabelo branco de sua mãe, o mundo é quem ensina que cabelos brancos são feios, a gente aprende se quiser, e completou citando um dos Provérbios de Salomão, que diz que “as cãs são coroa de honra quando estão em caminhos de justiça”.

Apesar de não ser radical com relação aos cuidados pessoais e adornos femininos, fico feliz de ver que ainda existe gente que faz valer o que acredita e não se deixa pressionar pelos padrões sociais, por estereótipos que muitas vezes são torpes.

Agora, um dos aspectos mais marcantes das cãs, a meu ver, ainda é o poder que elas tem de, na maioria das vezes, blindar uma pessoa contra palavras atravessadas ou algumas verdades mais duras de se ouvir. Os idosos, como principais portadores das cãs, são, na nossa cultura e em outras do mundo, naturalmente protegidos pela idade avançada e respeitados em virtude dela.

Tudo bem que há muitos casos de maus tratos aos idosos, mas isso é coisa de meninos maus, pois desde pequenos somos advertidos por pais e professores que uma das coisas que um bom menino e uma boa menina devem fazer é tratar bem e respeitar os mais velhos.

Imaginemos uma pessoa de 70 anos de idade. Quantas emoções boas e ruins, quantas pendengas foram resolvidas, quantos problemas sem solução ficaram pra trás, quantos amores e desamores, quantas raivas passaram, quantas alegrias sentiram, por quantos erros se arrependeram, quantos acertos, por quantas mortes ou doenças já sofreram, quanta vitalidade se perdeu pelo caminho, quantas lágrimas derramadas. Puxa! Que bagagem de vida uma pessoa idosa tem, independente de ele ser um velho legal ou um rabugento.

Não é preciso ser um gênio pra entender que existem pessoas no mundo que são gentis e sabem se relacionar com os outros e existem pessoas que não sabem. Um jovem legal provavelmente será um velho legal. Logo, um chato novo, se não mudar, vai ser só um velho chato. Mas paciência é algo essencial quando topamos com um velhinho desses que parece que chupou limão em jejum.

Bom, se eu fosse falar dos velhinhos da minha vida eu não mentiria. Diria que tenho vários privilégios, como o de chamar de vó uma das mulheres mais incríveis que já conheci, ou o de bater papo com o paulista careca com quem ela casou, ou o de me divertir com as presepadas do velhinho inquieto que é meu avô paterno. Mas sei que há idosos que, consciente ou inconscientemente, acabam se escondendo atrás dos seus cabelos brancos para poderem falar o que bem entendem sem medo. Paciência! Sabe aquela máxima “pergunta idiota, tolerância zero”?

Pois é, aos mais velhos não deveria se aplicar porque desde cedo aprendemos que eles merecem respeito, não só às pessoas idosas em si, mas também a tudo que sua velhice e seus cabelos brancos representam.

Muitas vezes me pego olhando alguns idosos na rua, em filas, em salas de espera. A postura muitas vezes é encurvada, alguns senhores carecas, senhorinhas enrugadas, dói aqui, dói ali, muitos remédios, fragilizados emocionalmente, cabelos brancos… E imagino quantas histórias se escondem nessas cãs e quanta sabedoria elas carregam.

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