Saúde pra dar e vender, episódio 2


 
 

Estamos no mês de março mas considerando que, de acordo com povão, agora que o ano começou, acho que a velha máxima do Ano Novo e toda reflexão em torno dela ainda vale. O que seria mesmo ter saúde pra dar e vender? Voltando à primeira aula da faculdade de Ed. Física, a qual tranquei há milênios atrás pois não queria dançar nas aulas de Rítmica (mas isso é assunto pra outro post), a professora de Metodologia do Desporto vem com a pergunta: O que é ter saúde? “Ter saúde é muito mais do que não ter doenças”, eu comecei…

 

flor-inverno
Foto “Flor no Inverno” do nosso editor Marco Correa

 

E lembro que essa frase escutei há trocentos anos quando trabalhei em uma empresa de vendas diretas, a qual eu não vou citar o nome, especializada em maracutaia pra expandir a empresa produtos nutricionais. Esquecendo o contexto marketeiro no qual essa frase normalmente é empregada na tal empresa, creio que ela representa a mais pura verdade.

Imagine a cena: um cidadão mora em um barraco na favela com a família. Ele não sente dor em uma unha sequer e pode até dizer por aí que tem uma saúde de aço. Mas quase todos os dias na hora do jantar ele precisa largar o prato e se jogar no chão por causa dos tiroteios, isso antes de passar metade da noite olhando pro teto, contando os furos, com medo de não acordar se por acaso pegar no sono (e nem sobra espaço pra romantismo com a esposa).

Em uma segunda cena hipotética o cidadão sai de casa às 6:00h da manhã para poder, depois de um trânsito insuportável, chegar ao trabalho às 8:00h, o que nos dá a ideia de uma volta para casa com a mesma demora. Sendo assim, ele só estará no aconchego do lar, se sair às 17:00h, por volta das 19:00h da noite. Nem precisa falar que esse cara só almoça em restaurante.

Tanto na primeira cena quanto na segunda posso perceber que realmente ter saúde vai muito além de não estar doente ou sentindo qualquer dor. Ambos os cidadãos, a meu ver, não estão com a saúde em dia. O primeiro indivíduo não consegue se alimentar com tranquilidade, tem uma descarga desnecessária de adrenalina na hora de jantar, sem falar do sono prejudicado (e a falta de romantismo no leito justamente pela falta de ‘clima’, ui!). Já o segundo, necessita acordar demasiadamente cedo pra não chegar atrasado ao trabalho, além de nunca almoçar em casa com a família, passar o dia com sono acumulado, enfrentar um trânsito cansativo e ainda não poder estar mais cedo em casa para desfrutar de um maior tempo de convívio familiar ou simplesmente gozar de um ócio produtivo.

Sou da época em que Estudos Sociais[bb] era uma disciplina curricular do primário (me senti velha agora) cujos livros estavam sempre mostrando que a saúde não está somente relacionada ao corpo físico do indivíduo, mas a todo o ambiente em que ele vive e às suas relações sociais. Sim, isso parece redundância no contexto social atual, mas tentem olhar os pormenores dessa questão. Reparem nas pessoas que chegam a uma loja para comprar um artigo e antes de qualquer coisa abrem um sorriso ao vendedor e dão um bom dia sincero e enérgico. Tenho a ousadia de dizer que essa pessoa é mais saudável e jovial do que aquele que trata o vendedor como mero empregado ao qual qualquer bom dia seco, qualquer olhar de soslaio e qualquer cara amarrada servem.

Na realidade urbana em que eu vivo talvez seja mais fácil encontrar pessoas na rua que ainda passam umas pelas outras e sorriem sem nenhum interesse além do próprio sorriso. Está cada vez mais raro, mas ainda existe. Conheço algumas capitais maiores como Brasília, Salvador, Goiânia, Natal, Cuiabá e até Porto Velho que ainda é maior que a minha Rio Branco, e garanto: o tamanho da capital é diretamente proporcional ao tamanho do mau humor de seus cidadãos.

Nessa situação, tudo que é MAIS e MAIOR sempre arrasta coisas com conotação ruim e que trazem prejuízo pra saúde como um todo. Cidade maior: mais perturbação, mais perigo, mais cobrança por resultados (principalmente financeiros), mais tempo no trabalho, mais tempo no trânsito, mais mal humor, mais cansaço, mais doenças ‘modernas’.

O que quero dizer com tudo isso é que não adianta praticar uma atividade física regularmente, ter uma alimentação com os principais grupos de nutrientes se você, mesmo assim, não tem tempo pra se dedicar aos outros também, não cultiva amizades, aliás, nem vê seus amigos e não faz novos, porque desconfia de todos ao redor pela sua própria segurança, não usufrui de tempo bem aproveitado com sua família, está sempre correndo em uma rotina cansativa e sempre apático e de mal humor com os vizinhos. Tudo bem que tem vizinhos (como os meus) que mereciam um balde d’água na janela de casa por não baixar o volume ensurdecedor do “Bará bará bará, berê berê berê” interpretado na voz de Alvin e os esquilos[bb], eu acho, em plena 3ª feira às 10 da noite. Doentes!

Ter ou não saúde de aço também envolve todas essas relações. E talvez fosse bom avaliarmos o quanto custaria de saúde física, mental e espiritual e o quanto valeria a pena viver no meio de todo esse siribolo só pra não perder o bonde da globalização e do pós-modernismo com todas as suas exigências.

Uma cara feia nem sempre é fome. Em muitas das vezes é doença mesmo, com todas as variações e significados que a palavra doença pode ter.

Gostou do Post? Leia outros relacionados:

Deixe um Comentário