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Não poderia deixar de citar, nesta sexta feira poética, da importância da vida e obra do poeta português José Saramago, falecido nesta sexta feira.
Dono de um estilo único, a utilização de frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento.
Podemos ver suas várias fáces a partir da diversidade de suas obras, desde romances como “Ensaio Sobre a Cegueira” e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo
“, teatro, contos, crônicas e poesias, as quais destaco a antologia “Provavelmente Alegria
“, com poemas de sombra e de luz, entrançados, de uma elaboração feita através do seu próprio avesso, simultaneamente de mar e de trevas. (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)
A poesia de hoje é desse livro, publicado em 1970.
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Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.
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