.
.
Enquanto o salário sobe de escadas, a inflação sobe de elevador.
Antes do plano Real, mais ou menos no período de boliche do Fred Flintstone e seus amigos, era com frases assim que víamos nosso dinheiro perdendo valor, com inflação na casa dos milhares percentuais mensais, e o etiquetador do mercado com tendinite de tanto subir preço, coisa e tal.
Isso era tão bizarro, tão surreal, que até hoje ainda é complicado de explicar para aqueles que nasceram mais tarde. Depois que os economistas pararam que brincar de médico com nosso dinheiro, nos acostumamos tanto com essa sensação de que as coisas vão bem que ao anunciarem um índice de inflação de apenas 1 e poucos por cento para o mês de novembro, tenho até um pouco de arritmia.
Pô, essas coisas bagunçam com a cabeça do pião!
.

.
O que a gente se esquece é que nós mesmos somos os responsáveis por essa alta de preços, assim na lata, sem choro nem vela. Afinal de contas, não preciso ser um gênio (e eu sou) para supor uma série de possibilidades estratosféricas, que visam explicar porque o Corinthians não ganhou o Campeonato Brasileiro, ou mesmo dos fãs do U2 que ficaram sem ingresso e mimimi.
A resposta mais simples é a mais correta, e neste caso é uma questão de lei de mercado. A boa e velha lei da oferta e da procura.
Notem, época de Natal, que para 98% das pessoas significa se endividar até abril do ano que vem para comprar um presente para aquele amigo oculto (ou secreto ou o nome que deseje) e que em quase dois terços das situações ele vai ser trocado na loja por alguma outra coisa.
Presentear alguém, claro que é bom, mas não precisa haver uma data para isso, muito menos incentivo. Uma ação, um gesto as vezes tem mais valor do que o super-mega iPad de última geração que acabou de ser lançado aqui.
Por isso que iniciativas como o “Papai Noel dos Correios” possuem tanto valor, que para quem não sabe, não tem como objetivo distribuir presentes, mas sim a preocupação em responder as crianças que mandaram suas cartas.
Procure um posto regional dos Correios no seu estado, participe conosco e faça uma criança sorrir neste Natal.
E como eu sou legal, antes que pense na dificuldade em ter que levantar dessa cadeira, saiba que você também pode ajudar com doações que serão utilizadas para que o idealizadores comprem o brinquedo desejado, por intermédio do AdoteUmaCarta.
Por enquanto o site só tem cartas de Goiás, mas isso é um detalhe.
Texto antigo, um dos primeiros que escrevi, em janeiro de 2002.
Se fosse hoje, faria tudo diferente, a começar pelo título. De qualquer forma, foi publicado em partes no meu antigo blog, com as idéias surgindo, os comentários dos leitores e afins.
UMA OUTRA ORDEM (MAS PODERIA TER AINDA OUTRAS)
Janeiro/2002
Mais uma manhã, assim como inúmeras outras, mas de alguma forma eu sabia que hoje iria acontecer uma coisa diferente, a ponto de mudar minha vida, de colocá-la de pernas pro ar…
Levantei-me como de costume e fui logo tomar meu banho, ao som de um rock bem pesado, daqueles que eu gostava muito e os vizinhos odiavam. Durante o café, notei uma carta próxima à porta da sala, como se alguém a tivesse jogado pela fresta da porta, quase num segundo, derrubei o café no colo e fui pegar a carta (o que me ocasionou em um atraso e algumas queimaduras, mas fazer o quê?).
Logo vi que não possuía remetente, apenas meu nome escrito com uma caligrafia muito trêmula. Não tive coragem de abrir a carta, me apressei e fui logo ao escritório onde trabalhava, afinal já estava atrasado e meu chefe, que carinhosamente apelidei de João, deveria estar uma fera.
Fato, meu querido chefe João estava na porta do prédio com um olhar furioso, pelo jeito que estava, se me visse era capaz de me mandar embora ali mesmo. Do estacionamento, segui para a janela da sala do zelador, não era muito grande, mas podia passar por ela tranqüilamente, e foi o que fiz.
Chegando em minha mesa, finalmente relaxei, fui pegar um café e me acomodar para receber os e-mails, aliás, quão desligado eu sou, nem me apresentei pra vocês. Me chamo Roberto, Beto, Betão, o que preferirem, e trabalho como revisor em uma grande editora.
Após alguns e-mails, percebi algo pesado em meu bolso e lembrei da bendita carta, a princípio fiquei encabulado e abri-la em minha mesa e corri para o fumódromo, aliás, meu único vício é dar umas boas baforadas em meu cachimbo de vez em quando.
Estava vazio, e eu poderia ter um pouco de privacidade, mas antes de abri-la, tentei descobrir quem poderia ter me enviado, afinal não tinha muitos amigos, a não ser os virtuais e minha família morava no interior. Ao começar a abrir a carta, ouvi barulho no corredor e notei que o chefe João me procurava, infelizmente, a carta tinha que ficar para depois.
Fui de encontro a João, que já chegou todo irritado, me dizendo alguns impropérios que não vale a pena repetir. É claro que não deixei por menos e respondi a altura de tais “elogios”. Foi uma cena clássica, que espantou até a mim mesmo, e que me custou um emprego que gostava muito e que tinha feito alguns grandes amigos, como a garrafa de café e o meu micro, mas assim é a vida e devemos olhar para o futuro, sempre.
Como já era quase hora do almoço, me dirigi a um bar, daqueles “podrão” do centro. Chegando lá pedi o tradicional comercial com bife, salada e fritas, e uma dose de cognac para acompanhar. Durante minha espera pela refeição, uma reportagem do noticiário me chamou a atenção, acho que matérias sensacionalistas me atraem: assassinatos, acidentes, desastres sempre estiveram na lista dos “10 mais”.
Essa matéria acho eu, me chamou atenção por se tratar de um caso de suicídio, ocorrido no meu bairro (descobri depois que fora no meu prédio). Em dado momento, parece que tive um espasmo e comecei a colocar os pingos nos is: hoje de manhã, recebi essa misteriosa carta, que nem sei o que há nela; perdi meu emprego, após uma briga com o Joãozinho; ontem, notei um carro com pessoas estranhas rodeando o meu prédio…
Por sinal, não havia aberto a carta ainda e abri-la ali seria muito perigoso, pois poderia haver alguma relação com aquele suicídio. Corri para o banheiro, onde poderia ter um pouco de privacidade, sentei-me no vaso e puxei a carta do bolso, notei um certo tumulto do lado de fora do banheiro, barulho de mesas caindo e sinal de briga.
Sem pestanejar, fugi daquele local fétido, me importando apenas em não ser visto por aquelas pessoas tão estranhas e muito bem vestidas. Já em um local aparentemente seguro, e ainda com fome, pensei em chamar a polícia; não sei o que aconteceu, mas não tive coragem em procurar um orelhão. Agora pensava apenas em trocar minhas roupas (que estavam horríveis) e talvez procurar alguns conhecidos que poderiam me ajudar.
Perambulei pelas ruas do centro com essa dúvida na cabeça não sei por quanto tempo, até me esqueci que ainda estava com roupas sujas e com muita fome. Decidi entrar em um hotel, do tipo daqueles em que as prostitutas e travestis costumam fazer seus programas; pelo menos por esta noite eu estaria protegido.
No balcão estava uma mulher muito velha e feia, mas o que me chamou atenção foi a decoração do local: pelas paredes haviam várias fotos de prostitutas e travestis, algumas até estavam circulando pelo hall do hotel e não demorei em reconhecê-las (los). “_ Ei você! Nunca viu?” Foi o que ouvi da mulher, sem tempo para responder, quase num segundo ela muda de feições e diz: “_ São minhas filhas… Elas não são lindas?”
“_Quero um quarto, pra passar a noite!” – disse a ela, que me fitou por uns instantes e depois me deu a chave, pedindo para uma prostituta me acompanhar ao quarto. Ela era muito comunicativa, me falando sobre os mais variados assuntos, que sinceramente nem dei muita atenção, o que queria mesmo era um bom banho, roupas limpas e descanso, mas fiquei sabendo alguns dias depois, que essa noite foi muito longa…
Após um longo banho, procurei dormir um pouco, para tentar relaxar. Rolei por mais ou menos meia hora, envolto em pensamentos dos mais estranhos possíveis: pensei no caso do suicídio, em João, nas putas e putos do saguão, enfim lembrei que ainda não tinha aberto a carta e que poderia, quem sabe, abri-la ali mesmo.
Procurei a carta e a encontrei no meio de minhas roupas sujas, estava toda amassada, e já começava a rasgar no canto. Continuei por aquele rasgo até a metade da carta quando ouvi batidas na porta. Rapidamente escondi a carta e pedi que entrasse, quem quer que fosse a pessoa e, me arrependi muito por não ter me preparado melhor.
A última coisa que me lembro era a cena de dois homens magros, com roupas e óculos escuros, entrando pelo quarto e me perguntando uma série de coisas que nem fazia idéia.
Agora estou aqui, nesta sala escura, todo amarrado, com dores horríveis pelo corpo todo. Ainda mais sem saber o porque de tudo isso.
Notei que em algum canto estavam aquelas estranhas pessoas, estava muito escuro e não consegui reconhecê-las. Em dado momento, notei que elas vinham em minha direção e vi também que tinha mais pessoas com elas.
Fui questionado sobre o conteúdo da carta, onde disse que não sabia e eles não acreditaram e foram pegar a carta, que estava praticamente destruída. Vi que já tinha sido aberta.
Outra pessoa veio com uma folha toda amassada lendo o seguinte: “Essa carta, destinada somente a você, contém um segredo que pode mudar toda a nossa existência, se você a lê, é porque não estou mais nessa missão, mas, repito, somente você pode terminá-la e tem que seguir as instruções que estão aqui…”
Lembrei que se tratava da pessoa do suicídio, mas nem tive tempo de refletir sobre isso e já tomei um soco, ouvindo em seguida: “Quais são essas instruções, nos diga ou será pior!” Disse novamente que não sabia e que tudo não passou de um engano, que estavam com a pessoa errada.
“… Primeiro, você deve seguir até o prédio 69 e dizer a senha ao porteiro…” Ouvi logo depois, e lembrei de um tal 69 no meu bairro – era um prédio abandonado que antigamente era uma fábrica de máquinas industriais. “… O porteiro deve te levar até a sala do chefe, que te passará as instruções seguintes…” Agora complicou de vez, como eu iria ter essas instruções? Quem eram aquelas pessoas, e o que queriam comigo?
Em algum momento, senti algo frio penetrando meu corpo, com uma facilidade tremenda. Me senti como um pote de manteiga no exato momento em que é colocada a faca…
Neste momento, vi meu mundo ser destruído. Tudo o que eu não tinha, as pessoas que não conheci, os lugares que não frequentei, as mulheres que não tive… Quando tudo se apagou, ouvi uma última frase: “Acabou, o serviço está feito… Vamos embora!”
Considerações finais: O Sr. Roberto Guedes foi assassinado com 12 facadas em lugares diferentes do corpo. Não se sabe ao certo o motivo de tal atitude, mas supõe-se que esteja envolvido com a máfia. Ele tinha 26 anos…
Nós do corpo policial de São Paulo, não temos mais nada a dizer sobre esse caso.
Fim.
Ei! Se você é como eu, e insiste em escrever cartas (sim de papel, manuscritas), preste atenção:
Sabia que podemos colocar ainda mais charme nelas? Sim, com um origami realmente simples e que pode ter certeza, quem receber vai gostar muito – meninos que (ainda) paqueram, essa dica custa 30% (eu já pude confirmar).