Arquivo

Textos com Etiquetas ‘conto’

Quando chove

Quando chove

Era manhã de inverno, e eu tinha que me levantar para trabalhar, algo normal, repetido à exaustão por cada vez mais pessoas.

Leia mais…

Categories: Literatura Tags: , , ,

Uma Outra Ordem

Texto antigo, um dos primeiros que escrevi, em janeiro de 2002.
Se fosse hoje, faria tudo diferente, a começar pelo título. De qualquer forma, foi publicado em partes no meu antigo blog, com as idéias surgindo, os comentários dos leitores e afins.

UMA OUTRA ORDEM (MAS PODERIA TER AINDA OUTRAS)

Janeiro/2002

Mais uma manhã, assim como inúmeras outras, mas de alguma forma eu sabia que hoje iria acontecer uma coisa diferente, a ponto de mudar minha vida, de colocá-la de pernas pro ar…

Levantei-me como de costume e fui logo tomar meu banho, ao som de um rock bem pesado, daqueles que eu gostava muito e os vizinhos odiavam. Durante o café, notei uma carta próxima à porta da sala, como se alguém a tivesse jogado pela fresta da porta, quase num segundo, derrubei o café no colo e fui pegar a carta (o que me ocasionou em um atraso e algumas queimaduras, mas fazer o quê?).

Logo vi que não possuía remetente, apenas meu nome escrito com uma caligrafia muito trêmula. Não tive coragem de abrir a carta, me apressei e fui logo ao escritório onde trabalhava, afinal já estava atrasado e meu chefe, que carinhosamente apelidei de João, deveria estar uma fera.

Fato, meu querido chefe João estava na porta do prédio com um olhar furioso, pelo jeito que estava, se me visse era capaz de me mandar embora ali mesmo. Do estacionamento, segui para a janela da sala do zelador, não era muito grande, mas podia passar por ela tranqüilamente, e foi o que fiz.

Chegando em minha mesa, finalmente relaxei, fui pegar um café e me acomodar para receber os e-mails, aliás, quão desligado eu sou, nem me apresentei pra vocês. Me chamo Roberto, Beto, Betão, o que preferirem, e trabalho como revisor em uma grande editora.
Após alguns e-mails, percebi algo pesado em meu bolso e lembrei da bendita carta, a princípio fiquei encabulado e abri-la em minha mesa e corri para o fumódromo, aliás, meu único vício é dar umas boas baforadas em meu cachimbo de vez em quando.

Estava vazio, e eu poderia ter um pouco de privacidade, mas antes de abri-la, tentei descobrir quem poderia ter me enviado, afinal não tinha muitos amigos, a não ser os virtuais e minha família morava no interior. Ao começar a abrir a carta, ouvi barulho no corredor e notei que o chefe João me procurava, infelizmente, a carta tinha que ficar para depois.

Fui de encontro a João, que já chegou todo irritado, me dizendo alguns impropérios que não vale a pena repetir. É claro que não deixei por menos e respondi a altura de tais “elogios”. Foi uma cena clássica, que espantou até a mim mesmo, e que me custou um emprego que gostava muito e que tinha feito alguns grandes amigos, como a garrafa de café e o meu micro, mas assim é a vida e devemos olhar para o futuro, sempre.

Como já era quase hora do almoço, me dirigi a um bar, daqueles “podrão” do centro. Chegando lá pedi o tradicional comercial com bife, salada e fritas, e uma dose de cognac para acompanhar. Durante minha espera pela refeição, uma reportagem do noticiário me chamou a atenção, acho que matérias sensacionalistas me atraem: assassinatos, acidentes, desastres sempre estiveram na lista dos “10 mais”.

Essa matéria acho eu, me chamou atenção por se tratar de um caso de suicídio, ocorrido no meu bairro (descobri depois que fora no meu prédio). Em dado momento, parece que tive um espasmo e comecei a colocar os pingos nos is: hoje de manhã, recebi essa misteriosa carta, que nem sei o que há nela; perdi meu emprego, após uma briga com o Joãozinho; ontem, notei um carro com pessoas estranhas rodeando o meu prédio…

Por sinal, não havia aberto a carta ainda e abri-la ali seria muito perigoso, pois poderia haver alguma relação com aquele suicídio. Corri para o banheiro, onde poderia ter um pouco de privacidade, sentei-me no vaso e puxei a carta do bolso, notei um certo tumulto do lado de fora do banheiro, barulho de mesas caindo e sinal de briga.

Sem pestanejar, fugi daquele local fétido, me importando apenas em não ser visto por aquelas pessoas tão estranhas e muito bem vestidas. Já em um local aparentemente seguro, e ainda com fome, pensei em chamar a polícia; não sei o que aconteceu, mas não tive coragem em procurar um orelhão. Agora pensava apenas em trocar minhas roupas (que estavam horríveis) e talvez procurar alguns conhecidos que poderiam me ajudar.

Perambulei pelas ruas do centro com essa dúvida na cabeça não sei por quanto tempo, até me esqueci que ainda estava com roupas sujas e com muita fome. Decidi entrar em um hotel, do tipo daqueles em que as prostitutas e travestis costumam fazer seus programas; pelo menos por esta noite eu estaria protegido.

No balcão estava uma mulher muito velha e feia, mas o que me chamou atenção foi a decoração do local: pelas paredes haviam várias fotos de prostitutas e travestis, algumas até estavam circulando pelo hall do hotel e não demorei em reconhecê-las (los). “_ Ei você! Nunca viu?” Foi o que ouvi da mulher, sem tempo para responder, quase num segundo ela muda de feições e diz: “_ São minhas filhas… Elas não são lindas?”

“_Quero um quarto, pra passar a noite!” – disse a ela, que me fitou por uns instantes e depois me deu a chave, pedindo para uma prostituta me acompanhar ao quarto. Ela era muito comunicativa, me falando sobre os mais variados assuntos, que sinceramente nem dei muita atenção, o que queria mesmo era um bom banho, roupas limpas e descanso, mas fiquei sabendo alguns dias depois, que essa noite foi muito longa…

Após um longo banho, procurei dormir um pouco, para tentar relaxar. Rolei por mais ou menos meia hora, envolto em pensamentos dos mais estranhos possíveis: pensei no caso do suicídio, em João, nas putas e putos do saguão, enfim lembrei que ainda não tinha aberto a carta e que poderia, quem sabe, abri-la ali mesmo.

Procurei a carta e a encontrei no meio de minhas roupas sujas, estava toda amassada, e já começava a rasgar no canto. Continuei por aquele rasgo até a metade da carta quando ouvi batidas na porta. Rapidamente escondi a carta e pedi que entrasse, quem quer que fosse a pessoa e, me arrependi muito por não ter me preparado melhor.

A última coisa que me lembro era a cena de dois homens magros, com roupas e óculos escuros, entrando pelo quarto e me perguntando uma série de coisas que nem fazia idéia.

Agora estou aqui, nesta sala escura, todo amarrado, com dores horríveis pelo corpo todo. Ainda mais sem saber o porque de tudo isso.

Notei que em algum canto estavam aquelas estranhas pessoas, estava muito escuro e não consegui reconhecê-las. Em dado momento, notei que elas vinham em minha direção e vi também que tinha mais pessoas com elas.

Fui questionado sobre o conteúdo da carta, onde disse que não sabia e eles não acreditaram e foram pegar a carta, que estava praticamente destruída. Vi que já tinha sido aberta.

Outra pessoa veio com uma folha toda amassada lendo o seguinte: “Essa carta, destinada somente a você, contém um segredo que pode mudar toda a nossa existência, se você a lê, é porque não estou mais nessa missão, mas, repito, somente você pode terminá-la e tem que seguir as instruções que estão aqui…”

Lembrei que se tratava da pessoa do suicídio, mas nem tive tempo de refletir sobre isso e já tomei um soco, ouvindo em seguida: “Quais são essas instruções, nos diga ou será pior!” Disse novamente que não sabia e que tudo não passou de um engano, que estavam com a pessoa errada.

“… Primeiro, você deve seguir até o prédio 69 e dizer a senha ao porteiro…” Ouvi logo depois, e lembrei de um tal 69 no meu bairro – era um prédio abandonado que antigamente era uma fábrica de máquinas industriais. “… O porteiro deve te levar até a sala do chefe, que te passará as instruções seguintes…” Agora complicou de vez, como eu iria ter essas instruções? Quem eram aquelas pessoas, e o que queriam comigo?

Em algum momento, senti algo frio penetrando meu corpo, com uma facilidade tremenda. Me senti como um pote de manteiga no exato momento em que é colocada a faca…

Neste momento, vi meu mundo ser destruído. Tudo o que eu não tinha, as pessoas que não conheci, os lugares que não frequentei, as mulheres que não tive… Quando tudo se apagou, ouvi uma última frase: “Acabou, o serviço está feito… Vamos embora!”

Considerações finais: O Sr. Roberto Guedes foi assassinado com 12 facadas em lugares diferentes do corpo. Não se sabe ao certo o motivo de tal atitude, mas supõe-se que esteja envolvido com a máfia. Ele tinha 26 anos…

Nós do corpo policial de São Paulo, não temos mais nada a dizer sobre esse caso.

Fim.

Categories: Literatura Tags: , , ,

Souffrance à la Tablette

Escrevi este texto em cerca de 10 ou 15 minutos, num dia de julho de 2002.

Acho que nesse dia tinha estourado algum, dos muitos problemas, que aconteceram naquela época no meu antigo emprego. Lembro que me sentava em frente ao Cláudio, que é meu amigo até hoje, e conversávamos algo que já me esqueci. Ele quem me incentivou a escrever este microconto, só não sabia do tema…


SOUFFRANCE À LA TABLETTE

As últimas horas de meu tumultuado velório, e posterior enterro foram estranhas, a começar pela falta de sentimentos que os presentes estavam demonstrando sobre meu corpo, este nem estava posto em um caixão, mas em um caixote, daqueles usados em feiras livres, mas de tamanho maior, de forma que se adaptasse quase perfeitamente ao meu corpo. Entendo que a situação financeira de minha família fosse pequena, mas bem que poderiam fazem mais algumas dívidas e me dar um fim de vida um pouco mais decente…

Tudo bem, eu não fui mesmo uma pessoa boa em vida, e talvez aquilo tudo se justificasse, no fundo percebi que somente alguns vagabundos, com quem passei meus últimos dias, sentiam minha falta. A dor escrita por extenso em seus rostos marcados pelo sofrimento de suas vidas talvez fosse a única maneira de expressarem seus sentimentos e emoções, e era suficiente.

Enquanto tentava perceber tudo isso, nem notei quando um de meus “queridos” parentes tirava uma caneta e um papel do bolso, demonstrando um certo desconforto e começou a preparar o que seria meu epitáfio, já que uma outra pessoa com formão e marreta em mãos esperava pelo papel ansiosamente. Durante esses acontecimentos todos, nem percebi que tinha voltado no tempo e revi minha infância, fazendo as mesmas estripulias de sempre e minha mãe correndo com a chaleira do café para me bater…

Não sei se fiquei feliz, ou triste, só sei que ao rever aquele pequeno mundo, percebi quanto era importante os nossos jogos com bola de meia, bolinhas de gude, pião, soltar pipas, beijar as meninas, caçar grilos… Aquelas amizades tinham um valor muito grande, e com o tempo nem notei, mas elas tinham sumido. Por isso minha surpresa ao rever essas lembranças e um certo desconforto ao senti-las.

Permaneci em silêncio, tentando manter aquele momento imaculado, único. Vi meu pai chegando do serviço, cansado de seu longo dia, mas com ânimo suficiente para chegar em casa e não preocupar ninguém, tentando se mostrar sempre como indestrutível ou perfeito. De súbito, tive um outro “salto” pela minha vida e cheguei a uma época que reconheci como sendo minha juventude, já que eu estava com uma aparência um pouco gasta e marcada, e também porque me situei dentro do colégio.

Revi os antigos professores, inspetores e todos aqueles a quem desprezava. As pessoas de meu convívio nada me valiam, era apenas o início do que chamarei de lenta decadência…

Vi também as pessoas de minha turma, loucas como sempre, correndo atrás das gatas e no meio delas vi meu primeiro e único amor que já tive em toda vida. Nesse momento de minha “viagem” tive o ápice: chorando feito louco ao ver aquele rosto novamente que retornava cada vez menos dentro de mim. Tentei falar com ela, como se isso fosse possível, gritei, corri, só para dizer o quanto sentia por tê-la feito sofrer, por acabar com a vida dela para sempre, falar com ela o quanto era importante, o quanto precisava dela, de seu sorriso e olhar, mas sabia que ela não me ouviria.

Comecei a perceber o quanto minha vida tinha sido vazia e sem sentido, não tinha amigos e aqueles que se atreveram a fazê-lo sofreram sérias reações. Certamente, isso iria me ajudar a chegar onde cheguei, além do fundo do poço, porque o fundo era uma coisa boa e isso eu não merecia.

Minha lenta decadência estava em auge; deixei o colégio e como todos os jovens de minha época, fui arrumar um emprego. A partir daí tudo aconteceu muito confuso e rápido, os empregos por onde passei, tudo o que tentei conseguir em minha vida, tudo o que perdi e acabei chegando à sarjeta, que a partir daí se tornou meu novo lar.

Talvez, todos sabemos o que aconteceu: uma coisa chamou outra e cada vez mais eu me destruía. Vivi assim até meus últimos instantes, e pela primeira vez, senti medo. Senti porque não sabia o que estava além, o que aconteceria depois e o que ou quem me esperava.

Não sei ao certo quanto tempo se passou depois, lembro apenas de estar me vendo durante os processos mortuários e tenho a sensação que estive sempre aqui. Lembrei da pessoa que iria escrever minha lápide e corri meus velhos olhos para ela. Ainda não tinha começado seu serviço, mas tinha a mensagem pronta em mãos:

“O tempo passou, e não conseguimos recuperá-lo…
Ele precisou de nós, mas ainda sim o desprezamos.
Não tivemos coragem de falar com ele,
que deve ter ficado muito triste…
Só quero que todos saibam que foi perdoado.
E que o amamos muito, para sempre…”

Ao ver aquelas palavras, percebi tudo e me odiei por não poder dizer que os amava…

Fim.

Categories: Literatura Tags: , , ,

O Batizado

A encontrou dormindo no sofá. Tinha ido a uma festa ontem e literalmente desmaiou, pelo estado em que estava. Se aproximou e passou a observá-la, suas formas, curvas, como a claridade que entrava pela janela refletia em seu rosto.

O tempo parou no momento em que sentiu seu perfume, enquanto roçou de leve em seu corpo.

Ela não teve reação. Sentiu-se confiante, tocando em outras partes de seu corpo. Tirou sua blusa, estava sem sutiã. Ficou olhando seus seios por alguns instantes, como se aquele momento fosse durar para sempre. E não teve coragem para tocá-los. Talvez pelo frio repentino, ela se encolhe um pouco mais, deixando seus quadris intocados à mostra.

Com toda paciência, abaixa o short cor de rosa que estava usando, deixando na altura dos joelhos.

Calcinha minúscula com motivos infantis, e ele sorri: ‘Nabokov estava certo’ pensa afinal. Se aproxima em beijos, rápidos e estalados, enquanto, pelo tato, descobre sensações que nunca imaginou ter, enquanto sua respiração se iguala à dela.

Vai ganhando confiança aos poucos, e logo está completamente nu. Sente-se capaz de maiores façanhas, como se tivesse talvez certa dose de imortalidade. ‘Será que és virgem?’ diz entre os dentes.

Ao contrário do que talvez pudesse acontecer, decide que não fará nada além. Como se aquele momento fosse o único que devesse existir. A observa por alguns instantes e só tem seu pensamento interrompido pelo telefone que toca.

Ele tem que entregar uma encomenda que não pode ser postergada.

Depois que alguns dias, no tradicional final de semana em família, recebe um convite para celebrar o aniversário de 17 anos dela.

No cartão estava escrito: “Sim, eu sou virgem…” e logo abaixo “Mas adorei!”

Fim

Or Barlade i Vuane Ek

Escrevi este texto em Agosto de 2002, para um projeto de mitologia própria. Na época, eu tinha acabado de ler todos os livros de Tolkien, e estava fortemente influenciado por tudo aquilo. Lembro também que a idéia consistia basicamente em uma sequência de contos e crônicas diferentes entre si, mas que de alguma forma falassem sobre a mesma coisa. Nesse dia, esse texto saiu em praticamente 5 minutos, estava no trabalho e as idéias foram surgindo (naquela época esses momentos eram constantes). Em casa, acho que ainda tenho um dos vários cadernos de rascunhos com um outro conto desta mitologia, que fala sobre um alguém (que não lembro mais) e sua viagem de motocicleta pelas regiões desertas deste planeta, e como conseguia entrar e sair de encrencas com a mesma facilidade com que mostrava o dedo médio. Leia mais…

Categories: Literatura Tags: