“Em meio às enchentes de emoções,
ainda me resta um fio de ar
para que eu
possa tentar
resistir”.
Parece até uma reação inconsciente, mas escrever por obrigação, aliás, fazer qualquer coisa dessa maneira, torna tudo mais difícil. E não é nem questão de desafio ou coisas assim.
Fato é que em uma resposta que recebi da Bia, e que na época nem me dei conta, para existir dentro da bolha dos blogs, a pessoa tem que se adaptar, e eu não gosto disso.
Significa que escrevo quando me der telha, sobre o que eu quiser, sem ter que me preocupar se vou ganhar algo com isso, sem tornar um lazer em trabalho.
É complicado, além de tudo, já que eu não tenho escrito praticamente nada em lugar nenhum, e mesmo que eu saiba que isso reflete um estado emocional, muitas vezes não quero ter que representar ou atuar em falsas atividades, ou agradar certas (e erradas) pessoas.
Só que ultimamente, representar é o que eu mais tenho feito.

“Eu”, em grafite 4B sobre sulfite, por Darlene de Carvalho
Quando eu era pequeno, o primeiro contato com livros que tive foi através do Pequeno Príncipe, talvez o melhor livro que já li em toda a minha vida, mas com aquela idade nem imaginava o que era o teor de uma amizade, ou sequer era capaz de compreender um sentimento tão abstrato com este.
Acho que posso dizer que depois de todos esses anos, alguns dos livros que li me ajudaram a ser o que sou, se tal pretensão existir, mas algumas vezes ainda me vejo pequeno e cheio de medos, debaixo da cama, fugindo de algum fantasma que teima em aparecer de vez em quando.
Lembro do meu pai contando estórias de dormir, onde o lobo mau sempre repetia: “E vou continuar a tentar pegar esses porquinhos amanhã, porque está muito tarde e estou com muito sono…” Isso era incrível.
Vieram os livros didáticos, e junto com eles o desafio de sobressair em uma turma onde todos talvez fossem iguais, mas que no fundo eram muito diferentes. Dessa época eu gosto de lembrar dos meus primeiros amores, todos impossíveis e inalcançáveis, e dessa maneira, vi que a vida não é leve, muito menos fácil, como algumas vezes teimam em nos dizer.
Por favor, se você é uma moça no início da juventude, da fase das descobertas, nunca diga para aquele seu melhor amigo – que te é apaixonado, diga-se – que prefere gostar dele somente como companhia. Muitas vezes na minha vida ouvi essa frase, e posso dizer que ainda hoje todas elas me assustam a noite.
Uma vez eu li que o homem completo é aquele que tem alguém só para si, que pode ser levantado se cair, alguém para conversar e serem amigos. Sinto algumas vezes que tive alguma parte de mim roubada, e mesmo que eu procure alguma cicatriz, talvez demore muito para achar…
Correr com lobos? Acho que fugi deles por muito tempo e por isso nunca fui capaz de ver que eram realmente mansos.
As pessoas costumam dizer que suas vidas formam verdadeiros livros, e eu já fui uma delas. Tentei dar histórias de aventura, caça ao tesouro pirata, guerras espaciais, fantasias que fazem parte de nós. Mas hoje, olhando pra trás, o que criei não foi um livro.
Um embaralhado de palavras e histórias, sensações e vivências não pode ser somente um livro.
Talvez por isso que tenho me atrevido a deixar de olhar só para trás e tentar outras direções, muitas delas surpreendentes.
Percebi que as páginas da frente estão todas brancas, caneta em punho, esperando por mim…
Pode parecer estranho, mas é verdade.
Desde muito tempo eu acho que poderia ter sido uma pessoa melhor, ou até mesmo ter algumas atitudes diferentes, sei lá. Fato é que neste momento que gostaria de arrancar tudo o que está guardado lá no fundo e por para fora, para nunca mais me lembrar. Como se isso fosse possível.
Ontem eu ouvi que virginianos são muito sensíveis… Só que não posso concordar simplesmente, prefiro acreditar que não são simples, soa melhor.
Como se eu pudesse liberar todas as emoções do mundo que estão guardadas aqui; algumas vezes é difícil estar ao lado e não conseguir sentir da mesma forma, ou com a mesma intensidade que outros sentem.
Existem algumas coisas inacabadas, e muito mais conversas que nunca serão ditas, e tudo isso é muito mal.
Afinal de contas “queria poder dizer em palavras o que sinto agora”, só que não tenho mais voz…