Sexta-feira poética: Meu Gesto
Meu Gesto

Meu gesto que destrói
A mole das formigas,
Tomá-lo-ão elas por de um ser divino;
Mas eu não sou divino para mim.
Assim talvez os deuses
Para si o não sejam,
E só de serem do que nós maiores
Tirem o serem deuses para nós.
Seja qual for o certo,
Mesmo para com esses
Que cremos serem deuses, não sejamos
Inteiros numa fé talvez sem causa.
Ricardo Reis (*1887 +1935)
in Odes de Ricardo Reis
Lisboa, Ática, 1946
A poesia de Ricardo Reis, um dos heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa (*1888 +1935), é marcada pela elevação do ser ao estado que (hoje) entendemos como onírico. Em seus textos, tenta iludir o sofrimento resultante da consciência aguda da precariedade da vida.
Em resumo, ele simboliza a herança clássica na literatura ocidental, expressa na simetria, harmonia, um certo bucolismo, com elementos epicuristas e estóicos.
Entretanto, seria muito incompleto falar sobre Pessoa e sua obra em apenas poucas palavras, como é a nossa proposta. Mesmo assim, posso afirmar que sua obra foi influenciada por escritores tais Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, John Keats, Percy Shelley, Alfred Tennyson, entre outros; e é tido por muitos (eu incluso), o maior escritor de língua portuguesa de todos os tempos.
Na sexta passada, falamos de Carlos Drummond de Andrade, e de seu poema “Cota Zero”. Confira!



