
Ontem eu estava dentro do Metrô, voltando pra casa, quando na estação da Sé subiu um jovem deficiente visual, acompanhado pelo seu cão-guia.
Até aí, nada de diferente e incomum, já que o mesmo direito que eu tenho de me locomover, ele também tem.
Ao meu lado, compartilhando o mesmo banco, um senhor já idoso me interrompe (estava com os fones de ouvido) para comentar que absurdo era ter um cachorro dentro do vagão, ao que respondi:
– Ele é cego, senhor…
(Pensa por uns segundos) — Quem, o cachorro?
Neste momento em diante não me lembro de mais nada do que ele disse, voltei com meus fones para a terra da inconformidade.
Pode parecer estranho, mas é verdade.
Desde muito tempo eu acho que poderia ter sido uma pessoa melhor, ou até mesmo ter algumas atitudes diferentes, sei lá. Fato é que neste momento que gostaria de arrancar tudo o que está guardado lá no fundo e por para fora, para nunca mais me lembrar. Como se isso fosse possível.
Ontem eu ouvi que virginianos são muito sensíveis… Só que não posso concordar simplesmente, prefiro acreditar que não são simples, soa melhor.
Como se eu pudesse liberar todas as emoções do mundo que estão guardadas aqui; algumas vezes é difícil estar ao lado e não conseguir sentir da mesma forma, ou com a mesma intensidade que outros sentem.
Existem algumas coisas inacabadas, e muito mais conversas que nunca serão ditas, e tudo isso é muito mal.
Afinal de contas “queria poder dizer em palavras o que sinto agora”, só que não tenho mais voz…