Mais um texto-convidado do amigo Leandro Deon, dessa vez fazendo um balanço da política brasileira no ano passado. Lembrando que para enviar seu material é preciso seguir as seguintes regras:
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UM BALANÇO DA POLÍTICA BRASILEIRA EM 2011
Por Leandro M. Deon*
O ano de 2011 foi, para a política brasileira, um ano frívolo, ou seja, mínimo em importância.

Depois da ressaca das eleições nas quais o Brasil acordou com uma presidente eleita à sombra do seu antecessor, a oposição em frangalhos e uma economia otimista em meio ao naufrágio da recessão mundial – otimismo esse que se revelou também frívolo – dois fatos merecem ser ressaltados como representativos da direção (ou falta dela) para a política brasileira: a queda do ministro Alfredo Nascimento (PR) e a criação do PSD de Gilberto Kassab.
Porque esta foi a que finalmente atingiu, ainda que levemente, o centro da super-coalizão política que governa Brasília à sombra da inatingível popularidade do ex-presidente Lula.
O PSDB tratou mal seus aliados entre 1994 e 2002. Colocou de lado o PMDB, pisoteou o PTB, jogou fora o PPB (hoje PP), não deu a mínima para o PL (hoje PR), apostando que o Brasil estava se encaminhando para um bipartidarismo à moda americana, somente entre os tucanos e o PT. O PSDB só tratou um pouco melhor o PFL (hoje DEM), e ainda assim, tão mal que esse também caiu fora nas eleições de 2002.
Com o PT é diferente. Lula trata seus aliados a pão-de-ló. Os ministros nomeados são os caciques que os próprios partidos querem, são dispensados de qualquer conhecimento técnico da área indicada e ficam de mãos livres para transformar as pastas em “feudos” de suas agremiações. É uma maravilha!
Por isso, a queda de Alfredo Nascimento foi um FATO, e abriu porteira para as que vieram depois, cada uma balançando um dos partidos aliados como se fosse um jogo de tiro ao alvo. Palocci caiu sozinho (era um coringa solto, sem apoio do “rei” do PT), Jobim caiu por mera bobagem, coisa de adolescente, e os demais foram abatidos um a um após demoradas frituras na cozinha, enquanto a presidente entretinha os convidados na sala.
Pois bem… Lula não fazia isso. Ele empenhava sua inatingível popularidade para defender seu ministros até os estertores. E geralmente conseguia. Já Dilma – como FHC – os deixa morrer à míngua, lentamente, sem defesa.
Foi por isso que a base aliada ameaçou, sutilmente, uma rebelião.
Isso aconteceu logo após o affair Nascimento, quando alguns caciques aliados disseram preferir Lula como candidato em 2014. Além de uma imperdoável indelicadeza com a presidente (a exatos 3 anos e meio das próximas eleições presidenciais), deram um recado direto ao PT: se o partido quiser Dilma como candidata (como seria imensamente vantajoso para o próprio PT), a base vai se dividir. Por enquanto, Dilma finge que não é com ela, enquanto a imprensa cai na conversa de que seu governo está sempre fazendo uma ‘faxina’…
Ou seja, o PT não tem mais que apenas uma opção em 2014. Lula terá que continuar como “bombeiro” das questões políticas do governo (deixando a Dilma apenas algo mais do que já era, na casa-civil) e se preparar para sua sexta campanha presidencial.
O problema é que esse ano também mostrou que Lula – ao contrário de Pelé e da desobrigatoriedade orçamentária atualmente chamada de DRU – não é eterno.
Se você acha que o prefeito Gilberto Kassab não prestígio algum e não passa de um brutamonte ignorante com inteligência comparável a um leão-de-chácara de comício, então presumivelmente você está inteiramente certo.
Kassab não tem e nem terá o cacife para ser o tutor político da quarta maior bancada no Congresso nacional. No máximo, será o que sempre foi: um burocrata. Já existe um padrinho do novo partido, só que não pode aparecer.
Quem é?
José Serra. O ex-candidato do PSDB nas eleições de 2010 fez uma aposta que todos, inclusive ele, sabiam que era a última. Colocou em jogo todo o seu prestígio pessoal, articulou apoios e comandou uma campanha quase sem erros. Mas … não deu.
É impossível (repito, impossível) enfrentar um presidente que, mesmo sem falar nada disso, convenceu a população inteira que foi ele que finalmente pagou a dívida externa do país, que os pobres não mais vistos nas ruas porque estão em casa, recebendo um bolsa-família, e que até sua mão é capaz de encontrar petróleo na costa (além de trazer Olimpíadas, Copa do Mundo, etc). Lula consegue mentir até de boca calada.
Pois bem, isso é passado, e até José Serra é passado (salvo se algum milagre acontecer). Permita-me enfatizar o FATO de Serra não ter mais espaço dentro do PSDB – por mais que ande de mãos de dadas com o governador Alckmin, fingindo terem esquecido as degolas do passado. Ao criar o PSD, Kassab reassume a sua condição de burocrata e cria um espaço de articulação que permitirá a uma parcela da oposição (e alguns da situação) ter um candidato que faça frente ao enfadonho Aécio Neves, já candidato natural do PSDB, talvez em uma forçada composição com o DEM.
Assim, esfacelada, há uma oposição e uma oposição “do B”.
(Nunca caí no conto do PSD ser um partido de centro, como insiste seu burocrata-mor. O PSD é um tertius geneticamente desideologizado, e qualquer um que saiba como funcionam as câmaras de vereadores de qualquer cidadezinha do interior entende perfeitamente as vantagens de se ficar no meio).
Então, se Serra não será o candidato, quem será?
Esse candidato virá do governo – mais especificamente, de uma das forças que sustentam o governo, o PSB de Eduardo Campos (bom… até mudança em contrário, esse mesmo será o candidato em 2014), com o qual o PSD já nasceu amigo de infância. Aliás, a dilmette que atualmente a casa civil do Planalto já mostrou a delicadeza com que o governo do PT deve tratar os ministros de partidos que pensam em ter candidato próprio…
José Serra e Ciro Gomes no mesmo palanque? Sim, por que não? Ainda mais se forem palanques bem largos, com acomodações para todos os gostos.
*Leandro M. Deon (ou “Renan”, ou “Asparuk”, ou “Amercesto”), o lado obscuro do Vivendocidade, nasceu em meados do século passado, cumprindo pena em História nas proximidades do presídio da cidade medieval de Caxias, a do Sul. Libertado após pagar pesada fiança, refugiou-se no estado de São Paulo, em uma desconhecida localidade do interior, onde passa o tempo tentando se igualar a J. M. Turner ou lendo os livros do escritor equatoriano Rúben Solomón, que depois descobrimos ser apenas mais um de seus nomes falsos. Também toca o blog Caminho de Damasco. Caso venha a ser preso novamente, promete nos comunicar por celular.